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Porque você deveria usar BIM para projeto hidrossanitário

Quais erros podem ser evitados ao utilizar um software BIM para projeto e pré-construção virtual das instalações hidrossanitárias de uma edificação?

Eis que durante a execução de uma obra, acabo me envolvendo no seguinte diálogo (comum para quem vive o dia a dia de obra) com um dos colaboradores:

  • Vou fazer todos os banheiros iguais. – Disse o “profissional” responsável pelas instalações hidráulicas, com anos de experiência.

  • Mas porque não seguir o projeto? – perguntei.

  • Eu tenho experiência com isso. Assim vai ficar mais fácil e você vai economizar material. – ele concluiu.

Como ele parecia muito seguro do que falava, para evitar discussões, resolvi deixá-lo executar da maneira como quisesse, sem seguir o projeto.

Agora, vou contextualizar você:

  • Ele constitui-se de um condomínio multifamiliar com 3 casas geminadas, duas que totalizam 212m² de área total e uma, menor, de 155m², cada uma contendo 3 suítes.

  • Foi entregue em março de 2017;

  • Este empreendimento localiza-se na cidade de Florianópolis;

O Projeto   

Os sistemas hidráulico e sanitário foram dimensionados independentemente para cada uma das casas, como prevê o Código de Obras do município de Florianópolis. No total, são 12 banheiros, sendo 3 lavabos.

Além de ser projetado inicialmente por um escritório experiente da cidade utilizando o software AutoCAD, o projeto passou ainda por um processo de modelagem utilizando o software Revit MEP, o que resultou em uma série de adaptações a fim de evitar problemas de compatibilização com o sistema estrutural.

A mão de obra

Voltando a situação inicial desse post, isso é muito frequente pois no Brasil não é obrigatório que trabalhadores da construção civil passem por qualquer tipo de treinamento ou curso profissionalizante. Nos EUA, onde tive certa experiência, é obrigatório que profissionais subcontratados sejam regulamentados e tenham notações de responsabilidade.

Assim como os engenheiros, que precisam assinar uma ART de execução de obra, esses profissionais também são obrigados a assinar um termo de responsabilidade por seus serviços executados.

Um dia depois do diálogo, voltei para visitar a obra e vi que um dos banheiros da suite “master” parecia estranho. Percebi isto por ter passado algumas horas modelando aquele projeto em Revit, adquirindo uma clara noção de como o sistema hidráulico deveria funcionar.

Questionei o encanador então:

  • Você seguiu o projeto nesse banheiro? – perguntei já esperando uma desculpa.

  • Não doutor, acabei fazendo ele igual aos outros banheiros. Assim vai ficar mais fácil e você vai economizar material. – ele me respondeu, voltando ao argumento do outro dia.

Porém, eu já tinha ouvido essa frase antes e isso não soava nada bem para quem primava por uma execução fiel ao modelo.

Modelo BIM x Realidade    

Conferindo os modelos, percebi que os furos para os tubos de queda que levavam água fria e água quente dessa suíte, localizada no segundo pavimento, para a área de serviço do pavimento térreo, estavam executados em locais diferentes dos apontados no projeto.

Dada as condições, resolvi investigar pois quem sabe aquela solução realmente fosse melhor. Por isso, desci junto com o encanador ao primeiro pavimento, para ver aonde esse furo sairia. Para minha surpresa, o furo saia dentro de uma das churrasqueiras.

Além disso, outra diferença entre o projetado e o executado me chamou atenção. Para posicionar os registros dentro do box do banheiro, o encanador modificou os tubos do sistema AF-3 e AQ-3 (ver imagem abaixo).

Enquanto da mesma maneira como apontamos o erro ao encanador na primeira situação, precisamos parabeniza-lo por sua contribuição positiva. Nesse caso, o executado acabou otimizando o projeto arquitetônico do banheiro.

Esse simples acontecimento de obra ocorre com muita frequência em todos canteiros que empregam BIM para modelagem (e acompanham a obra).

 

Perdas

Nesse caso, as consequências negativas não foram dramáticas, nem causaram grandes prejuízos. Podemos resumi-las em duas então:

  • Retrabalho: furar uma laje treliçada é um grande trabalho, que além de demandar o equipamento ideal, consome horas de trabalho dos colaboradores. Agora imagine ter que fazer isso duas vezes desnecessariamente!

  • Perda de material:  nesse caso, não foi um grande problema pois ele foi identificado previamente. Foram necessários apenas 2 joelhos PPR que custam R$1,68. Mas ,caso o problema não fosse detectado antes de toda a ligação de  águas do pavimento térreo fosse executado, o problema poderia trazer maiores prejuízos e dores de cabeça. Ou então imagine esta situação em um prédio com diversas unidades replicadas.

Por mais experiente que seja um profissional, é muito mais difícil resolver problemas ou propor novas soluções no canteiro de obras. Veja bem, não estou falando que é impossível. Essas novas proposições acontecem e em alguns casos funcionam.

Mas não podemos aqui ser ingênuos de acreditar que, durante a fase de projeto, um profissional trabalhando em um ambiente mais calmo, com os recursos adequados e sem a pressão de tempo de execução tão grande quanto em obra, não conseguiria identificar os problemas com antecedência. Claro que desde que tenha os conhecimentos adequados.

Dicas finais

Se até mesmo pilotos de avião com milhares de horas de experiência de voo, dotados das mais modernas aeronaves, inúmeros check-list e sistemas de back-up para evitar erros humanos, acabam cometendo erros, como esperar que o encanador não cometa?

Claro que todo profissional está suscetível a errar, mas cabe a nós nos prepararmos com as melhores ferramentas para reduzir essa probabilidade.

Apenas uma modelagem em Revit MEP não resolve todos os problemas da obra. Além disso, é preciso experiência para que esse processo de modelagem/projeto seja feita de maneira coerente com o que será executado em obra, resultando assim em um modelo de pré-construção, ou construção virtual, como também é chamado.

Em um cenário ideal, o projetista e o executor fariam uma reunião previa analisando o modelo para discutir qualquer possível alteração no projeto. Somente após aprovação do projetista, essa alterações seriam executadas.

Este tipo de prática evita várias dores de cabeça em projetos mais ricos em detalhes e peculiaridades, como o hidrossanitário, e aumentaria ainda mais a precisão da modelagem BIM.

Alexandre Muller

Engenheiro Civil graduado na UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina, foi um dos fundadores da Integra Construção Inteligente, uma empresa de consultoria em planejamento e orçamento de obras utilizando BIM.

Em 2014, estudou na University of Southern California com dois grandes especialistas em BIM – Lucio Soibelman e Burcin Becerik-Gerber, ambos com anos de experiência na indústria, na área acadêmica e em pesquisa. Além disso, participou de uma pesquisa no i-Lab – Innovation in Integrated Informatics – sobre o uso de Laser Scanner para criação de modelos as-built.

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